Primeira Semana do Advento

D. Laurence Freeman, OSB

Primeira Semana do Advento 2021

Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: "Quando estas coisas começarem a acontecer, levantai-vos e erguei a cabeça, porque a vossa libertação está próxima.
Tomai cuidado para que vossos corações não fiquem insensíveis por causa da gula, da embriaguez e das preocupações da vida, e esse dia não caia de repente sobre vós; pois esse dia cairá como uma armadilha sobre todos os habitantes de toda a terra.
Portanto, ficai atentos e orai a todo momento, a fim de terdes força para escapar de tudo o que deve acontecer e para ficardes em pé diante do Filho do Homem”.

Além de qualquer outra coisa, os evangelhos são uma grande obra de arte, na verdade, uma arte espiritual suprema. Como toda arte, eles refletem o que os seres humanos como nós sentem e iluminam esses sentimentos com percepções transformadoras. Nós sentimos que eles nos conhecem antes de lê-los. Eles trazem para o campo da consciência o que normalmente permanece nas terras fronteiriças não-verbais e inimagináveis. Escutados sabiamente, eles tornam visível o invisível. Mas eles conseguem isso através da interação com nossa interpretação. Eles não são mágicos e não nos tratam como crianças. Se nos limitarmos a levar as palavras e imagens ao sentido literal, perdemos a oportunidade de olhar para trás da tela e, como Daniel, de 'olhar para as visões da noite'. Vamos usar as próximas quatro semanas para encontrar essas forças de sabedoria que chamamos de evangelhos de uma maneira nova e mais íntima.

Ao iniciarmos o Advento, um tempo reservado pela antiga sabedoria litúrgica para nos preparar para uma verdadeira celebração do Natal, somos primeiramente presenteados com uma série de profecias apocalípticas. Hoje nos acostumamos ao que parecem ser mensagens sombrias, em relação às previsões da mudança climática, corrupção financeira, guerras e as tragédias sofridas pelas famílias refugiadas, usadas insensivelmente como objetos de políticos ou traficantes. Mas as palavras de Jesus no evangelho para o primeiro domingo do Advento, a descrição de um “Dia do Juízo Final", ainda é arrepiante. Muitos cristãos as interpretam mal como previsões (que não são as mesmas que profecias) e as levam ao pé da letra. Eles o fazem apesar de Jesus, falando como o ponto culminante da linhagem dos profetas bíblicos, referir-se a coisas que acontecem em todas as épocas. É só conferir as notícias do dia.

Talvez a tendência de tomá-las literalmente revele um medo do que elas realmente significam. Eles ilustram o senso de mortalidade de cada ser humano, assim como o terror que surge de um mundo de constante mudança sobre o qual temos pouco controle. É mais fácil convencer-se de que o mundo vai pegar fogo amanhã do que viver pacificamente com o fato de que qualquer um de nós poderia falecer antes do fim do dia de hoje.

No entanto, estas profecias não são sensacionalistas e não terminam com a instilação do medo. Em vez disso, há a injunção de estar acordado, alerta, de rejeitar o deboche da distração prejudicial, descobrindo a realidade oculta, mas sempre presente, da oração contínua. Olhe para dentro, não para cima, para o céu. Estar presente para o presente que está presente, em vez de imaginar o amanhã.

O 'Caminho' do evangelho não é viver com medo e tremor. É reconhecer quando somos manipulados pelo medo, a partir de nosso inconsciente ou da mídia, e escolher o caminho da 'libertação' em seu lugar. O verdadeiro Fim é esta libertação do medo do fim.

Deixe-me sugerir para cada uma das semanas do Advento uma habilidade para aprender. Esta semana poderia ser sobre proteger seu coração e sua mente do medo e de sua prole, para expô-lo e dançar livremente sobre ele.

Laurence Freeman OSB

 

 


 

TEXTO ORIGINAL

First Week of Advent 2021

Jesus said to his disciples: ‘When these things begin to take place, stand erect, hold your heads high, because your liberation is near at hand. Watch yourselves, or your hearts will be coarsened with debauchery and drunkenness and the cares of life, and that day will be sprung on you suddenly, like a trap. For it will come down on every living person on the face of the earth. Stay awake, praying at all times for the strength to survive all that is going to happen, and to stand with confidence before the Son of Man.’

Apart from anything else, the gospels are great art, in fact supreme spiritual art. Like all art, they reflect what human beings like us feel and they illuminate those feelings with transformative insights. We sense they know us before we read them. They bring into the field of consciousness what normally remains on the non-verbal, un-imagined borderlands. Listened to wisely they make the invisible visible. But they achieve this through interaction with our interpretation. They are not magic and do not treat us like infants. If we merely take the words and images literally, we miss the opportunity to look behind the screen and, like Daniel, to ‘gaze into the visions of the night’. Let’s use the next four weeks to encounter these forces of wisdom we call the gospels in a new and more intimate way.

As we begin Advent, a time set aside by ancient liturgical wisdom to prepare us for a true celebration of Christmas, we are first presented with a series of apocalyptic prophecies. Today we have got used to what seems doom and gloom messages in relation to climate change predictions, financial corruption, wars and the tragedies suffered by refugee families callously used as objects of politicians or traffickers. But the words of Jesus in the gospel for the first Sunday of Advent, the description of a Day of Reckoning is still chilling. Many Christians misread them as predictions (which are not the same as prophecies) and take them literally. They do so despite the fact that Jesus, speaking as the culmination of the lineage of biblical prophets, refers to things that happen in every age. Check today’s news.

Perhaps the tendency to take them literally reveals a fear of what they actually do mean. They illustrate each human being’s sense of mortality as well as the terror that arises from a world of constant change over which we have little control. Easier to convince yourself that the world will go up in flames tomorrow than to live peacefully with the fact that any of us could pass away before today ends.

Yet these prophecies are not sensationalist and do not end with the instilling of fear. Instead there is the injunction to be awake, alert, to reject the debauchery of harmful distraction by discovering the hidden but ever-present reality of continuous prayer. Look inwards, not up at the sky. Be present to the present that is present rather than imagining tomorrow.

The ‘Way’ of the gospel is not to live in fear and trembling. It is to recognise when we are manipulated by fear, from our unconscious or from the media, and to choose the way of ‘liberation’ instead. The true End is this liberation from fear of the end.

Let me suggest for each o week of Advent a skill to learn. This week it could be to guard your heart and mind from fear and its progeny, to expose it and dance freely over it.

Laurence Freeman OSB