Terceira Semana do Advento

D. Laurence Freeman, OSB

Terceira Semana do Advento 2021

Naquele tempo, as multidões perguntavam a João Baptista: "Que devemos fazer?". Ele respondia-lhes: "Quem tiver duas túnicas reparta com quem não tem nenhuma; e quem tiver mantimentos faça o mesmo". Vieram também alguns publicanos para serem batizados e disseram: "Mestre, que devemos fazer?". João respondeu-lhes: "Não exijais nada além do que vos foi prescrito".

Perguntavam-lhe também os soldados: "E nós, que devemos fazer?". Ele respondeu-lhes: "Não pratiqueis violência com ninguém nem denuncieis injustamente; e contentai-vos com o vosso soldo". Como o povo estava na expectativa e todos pensavam em seus corações se João não seria o Messias, João tomou a palavra e disse-lhes: "Eu batizo-vos com água, mas está a chegar quem é mais forte do que eu, e eu não sou digno de desatar as correias das suas sandálias. Ele batizar-vos-á com o Espírito Santo e com o fogo. Tem na mão a pá para limpar a sua eira e recolherá o trigo no seu celeiro; a palha, porém, queimá-la-á num fogo que não se apaga". Assim, com estas e muitas outras exortações, João anunciava ao povo a Boa Nova.

Quando o óbvio soa estranho ou dramático, é um sinal de que nos afastamos da realidade e nos metemos em uma confusão. Quando tentamos nos livrar, muitas vezes nos afastamos de nossos líderes: afinal de contas, pensamos, eles nos conduziram à essa bagunça. Por isso, procuramos outras fontes de sabedoria ou de direção.

As multidões, incluindo alguns de seus líderes, saíram para o deserto para perguntar a um dos membros mais marginais da sociedade, o profeta, "o que devemos fazer? Como disse um dos Padres do deserto, Abba Isaac, que ensinou João Cassiano a meditar, quando Cassiano e seu amigo Germanus voltaram e perguntaram como deveriam rezar: "Você está muito perto da compreensão quando sabe que pergunta fazer". Ele então lhes ensinou - e às gerações seguintes - o mantra.

João Batista respondeu à pergunta "o que devemos fazer?" e não "como devemos orar?". Então ele lhes diz o óbvio: sejam honestos, não explorem os fracos, fiquem satisfeitos com o que é suficiente. O fato desta resposta ser necessária mostra como a vida social tinha se tornado corrupta e disfuncional. Esta é uma tendência em qualquer sociedade por causa da forma como o poder e a hierarquia funcionam. Mas num estado totalitário ou numa sociedade ocupada por uma força brutal, todas as relações sociais acabam sendo corrompidas e brutalizadas. Este é o legado de todos os períodos do colonialismo.

O profeta pode ser a centelha para um processo de conversão - tanto interior como social. E de fato, tanto a dimensão interna quanto a externa precisam ser convertidas. O batismo com água foi o sinal inicial para o exterior deste processo de reforma moral. Mas a visão do Batista viu mais profundamente do que o mundo dos sinais e das aparências. Ele falou do próximo, o aguardado, batismo de fogo. E é isso que esperamos no Advento: o momento em que o próprio tempo é inundado pela presença de Deus. É um dilúvio de fogo no qual o irreal desaparece e só o que é real então se torna extremamente óbvio.

Laurence Freeman OSB

 

 


 

TEXTO ORIGINAL

Third Week of Advent 2021

When all the people asked John, ‘What must we do?’ he answered, ‘If anyone has two tunics he must share with the man who has none, and the one with something to eat must do the same.’ There were tax collectors too who came for baptism, and these said to him, ‘Master, what must we do?’ He said to them, ‘Exact no more than your rate.’ Some soldiers asked him in their turn, ‘What about us? What must we do?’ He said to them, ‘No intimidation! No extortion! Be content with your pay!’ A feeling of expectancy had grown among the people, who were beginning to think that John might be the Christ, so John declared before them all, ‘I baptise you with water, but someone is coming, someone who is more powerful than I am, and I am not fit to undo the strap of his sandals; he will baptise you with the Holy Spirit and fire. His winnowing-fan is in his hand to clear his threshing-floor and to gather the wheat into his barn; but the chaff he will burn in a fire that will never go out.’ As well as this, there were many other things he said to exhort the people and to announce the Good News to them. (Lk 3: 10-18)

When the obvious sounds strange or dramatic it’s a sign that we have wandered far from reality and got ourselves into a mess. When we try to extricate ourselves we often turn away from our leaders: after all, we think, they led us into the mess. So we look to other sources of wisdom or for direction.

The crowds, including some of their leaders, went out into the desert to ask one of the most marginal of society’s members, the prophet, ‘‘what shall we do?’. As the desert father, Abba Isaac, who taught Cassian to meditate, said when Cassian and his friend Germanus returned and asked how they should pray: “You are next door to understanding when you know what question to ask”. He then taught them – and succeeding generations - the mantra.

John the Baptist responded to the question ‘what shall we do’ not ‘how shall we pray’. So he tells them the obvious: be honest, don’t exploit the weak, be content with what’s enough. That this was necessary at all shows how corrupt and dysfunctional social life had become. This is a tendency in any society because of the way power and hierarchy work. But in a totalitarian state or a society occupied by a brutal force all social relationships are eventually corrupted and brutalised. This is the legacy of all periods of colonialism.

The prophet can be the spark for a conversion process – both interior and social. And indeed, both the inner and outer dimensions need to be converted. Baptism with water was the initial outward sign of this process of moral reform. But the vision of the Baptist saw deeper than the world of signs and appearances. He spoke of the next, the awaited, baptism of fire. And that is what we wait for in Advent: the point in time when time itself is flooded by the presence of God. It is a flood of fire in which the unreal disappears and only what is real then becomes blindingly obvious.

Laurence Freeman OSB