Quarta Semana do Advento

D. Laurence Freeman, OSB

Naqueles dias, Maria pôs-se a caminho e dirigiu-se apressadamente para a montanha, em direção a uma cidade de Judá. Entrou em casa de Zacarias e saudou Isabel.Quando Isabel ouviu a saudação de Maria, o menino exultou-lhe no seio. Isabel ficou cheia do Espírito Santo e exclamou em alta voz: "Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre. Donde me é dado que venha ter comigo a Mãe do meu Senhor? Na verdade, logo que chegou aos meus ouvidos a voz da tua saudação, o menino exultou de alegria no meu seio.Bem-aventurada aquela que acreditou no cumprimento de tudo quanto lhe foi dito da parte do Senhor" (Lc 1: 39-45)

Imagine como estas poucas palavras descrevendo a Visitação inspiraram tantos artistas, músicos e poetas durante os últimos dois mil anos. Assim como a descrição evangélica da Anunciação (celebrada em 25 de março) que abre a história que, começando com a concepção de Jesus, atinge seu clímax nove meses depois. As palavras nos dão detalhes muito básicos, mas suficientes para despertar nossa imaginação criativa mais profunda para a vida e a maravilha.

Não a imaginação fantasiosa que serve aos nossos impulsos escapistas. Não as distrações no fluxo de imagens e as cenas que mudam rapidamente e que são difíceis de controlar durante a meditação. Mas a imaginação sagrada cuja paleta é o mundo dos símbolos. Recebendo a atenção reverente, eles nos conduzem à essência da realidade em todas as suas formas - tanto a forma material como a mais sutil.

Eis um vislumbre da imaginação do artista Pontormo do século 16, depois de ler e ter sido absorvido por esta cena:

Quarta Semana do Advento 2021

 

Não lemos estas histórias da forma como lemos revistas ou assistimos Netflix. Somos atraídos por elas para que revelem a verdade já presente e pronta para ser tocada, acordada dentro de nós mesmos. Através de um de nossos cinco sentidos físicos, Pontormo interpreta esta verdade em cor, forma e a sensação imediata de ter sido tocado.

O encontro da mulher mais jovem e da mais velha, ambas grávidas, seus mundos interiores se tocando através de seu abraço sensível. O outro - a centralidade do olhar nos olhos e na alma uma da outra. As acompanhantes ou amigas, também uma mais jovem e outra mais velho, em pé como seus reflexos no mundo cotidiano.

É um encontro desse tipo que todos nós tivemos e que não se desvanece. Eles permanecem na galeria permanente da história única de nossa vida. Nós os recordamos para o resto de nossas vidas, cheios de uma promessa e esperança que não podem desapontar. Talvez não tenhamos sido capazes de acreditar neles ou compreendê-los na época, mas eles podem dar à luz uma amizade ou mesmo um modo de vida que, por estar enraizado na base do nosso ser, cresce continuamente como parte de nós mesmos. A imaginação espiritual pode mediá-los em palavras ou imagens, mas nunca pode expressar plenamente sua verdade ou beleza. Na meditação, estamos mais em sintonia com eles.

Laurence Freeman OSB

 

 


 

TEXTO ORIGINAL

Mary set out and went as quickly as she could to a town in the hill country of Judah. She went into Zechariah’s house and greeted Elizabeth. Now as soon as Elizabeth heard Mary’s greeting, the child leapt in her womb and Elizabeth was filled with the Holy Spirit. She gave a loud cry and said, ‘Of all women you are the most blessed, and blessed is the fruit of your womb. Why should I be honoured with a visit from the mother of my Lord? For the moment your greeting reached my ears, the child in my womb leapt for joy. Yes, blessed is she who believed that the promise made her by the Lord would be fulfilled.’ (Lk 1: 39-45)

Imagine how these few words describing the Visitation have inspired so many artists, musicians and poets over the last two thousand years. As did the gospel description of the Annunciation (celebrated on March 25th) which opens the story that, beginning with the conception of Jesus, reaches its climax nine months later. The words give us bare details but enough to stir our deeper creative imagination into life and wonder.

Not the fantasy imagination that serves our escapist impulses. Not the wayward distractions in the stream of images and rapidly changing scenes that are hard to control during meditation. But the sacred imagination whose palette is the world of symbols. Carefully, reverently attended to, they lead us into the essence of reality in all forms – the material as well as the most subtle.

Here is a glimpse into the 16th century artist Pontormo’s imagination after he read and had been absorbed into this scene [image above]:

We don’t read these stories in the way we read magazines or watch Netflix. We are drawn into them so that they reveal the truth already present and ready to be touched awake within ourselves. Through one of our five physical senses Pontormo interprets this truth in colour, shape and the immediate sense of being touched.

The meeting of the younger and older woman, both pregnant, their inner worlds touching through their sensitive embrace. The other-centredness of their gaze into each other’s eyes and soul. Their attendants or friends, also one younger the other older, standing as their reflections in the day-to-day world.

It is one of that kind of meeting we all have had and that do not fade. They remain in the permanent gallery of our unique life’s story. We remember them for the rest of our lives, filled with a promise and hope that cannot disappoint. We might not have been able to believe in or understand them at the time, yet they can give birth to a friendship or even a way of life that, because it is rooted in the ground of our being, continuously grows as part of our selves. The spiritual imagination can mediate them in words or images but can never fully express their truth or beauty. In meditation we are most at one with them.

Laurence Freeman OSB