Jesus como mestre da oração

Jesus ensinou essencialmente que a oração é uma dimensão interior e íntima do nosso relacionamento com o Pai.

Despertar 1 por John Main OSB – Série de Palestras Meditatio 2014 C

Jesus foi, em seu tempo, tudo aquilo que hoje entenderíamos e descreveríamos, em linguagem popular, como um guru, um mestre. Ele teve essa vida oculta durante trinta anos antes de ela culminar em seu ministério ativo. O relato do Evangelho sobre sua vida mostra que ele possuía formação rabínica após um longo período de preparação; depois, a provação no deserto por quarenta dias; e, durante seu ministério, períodos de solidão em que se retirava das multidões para estar a sós com seu Pai celestial. Vocês sabem que ele era chamado de “Rabi”, que é a palavra hebraica para guru, mestre. Talvez a frase mais famosa em toda a Escritura que identifica Jesus como mestre esteja em Lucas: “Senhor, ensina-nos a orar, como João ensinou aos seus discípulos.” (Lc 11,1)

É importante compreendermos que Jesus não ensinou novas técnicas esotéricas de oração. Ele não sugeriu, por assim dizer, fórmulas mágicas. O Pai-Nosso em si não é uma espécie de encantamento. Porque ele era um mestre, porque era um profeta, veio chamar o ser humano de volta à oração. Ele tomou a oração como fundamento do ser, não no sentido de restaurar ritos ou costumes antigos dos quais as pessoas haviam se afastado, mas reconduzindo-as à atitude básica, necessária e fundamental que devemos ter diante de Deus — Deus como o relacionamento mais significativo e importante da nossa vida, da vida humana. Para Jesus, essa atitude não era uma questão de palavras ou formas, mas da experiência de nossa total e absoluta dependência de Deus. E a atitude que ele denunciou com a mais forte crítica foi a verbosidade, o formalismo e o pedantismo, que afastam a experiência fundamental de nossa dependência de Deus.

O que Jesus disse explicitamente sobre a oração? Ele ensinou essencialmente que a oração é uma dimensão interior e íntima do nosso relacionamento com o Pai. Assim como nos é dito que não devemos fazer ostentação da nossa religião diante dos homens, então, ele nos diz no Evangelho de Mateus, capítulo 6:

“Quando orardes, não sejais como os hipócritas; eles gostam de rezar de pé nas sinagogas e nas esquinas das ruas, para serem vistos pelos outros. Em verdade vos digo: já receberam a sua recompensa. Tu, porém, quando orares, entra no teu quarto, fecha a porta e ora a teu Pai que está no oculto; e teu Pai, que vê o que está oculto, te recompensará.” (Mt 6,5-6)

Ao nos dizer para rezarmos sozinhos, Jesus nos alerta sobre os perigos da oração cerimonial, da liturgia, que pode facilmente tornar-se mero formalismo, mera vaidade. O que ele está dizendo, se o compreendo corretamente, é que a oração é inevitavelmente responsabilidade pessoal de cada indivíduo. Temos de assumir essa responsabilidade de ir ao nosso quarto interior, à câmara mais profunda do nosso coração. E somente ao aceitar essa responsabilidade, no encontro direto consigo mesmo, na própria solidão, encontraremos o Pai no lugar secreto. O que Jesus está dizendo é que esse encontro com o Pai no íntimo do coração é algo que devemos compartilhar com os outros. E a oração litúrgica, a oração comunitária, é um grupo de espíritos realizados que se reúnem para partilhar a alegria de possuir o Senhor em seus corações.

A Chama Viva de Amor — Obras de João da Cruz (Copyright ICS Publications)

Cânticos da alma na comunicação íntima da união amorosa com Deus.

  1. Ó chama viva de amor,
    que ternamente feres minha alma
    em seu mais profundo centro! Já que
    agora não és opressiva,
    consuma-te, se assim o quiseres:
    rompe o véu deste doce encontro!
  2. Ó cautério suave,
    ó ferida deliciosa!
    Ó mão branda! Ó toque delicado
    que tem sabor de vida eterna
    e paga toda dívida!
    Ao matar, transformaste a morte em vida.
  3. Ó lâmpadas de fogo!
    em cujos esplendores
    as profundas cavernas do sentir,
    antes escuras e cegas,
    agora irradiam, tão raramente, tão primorosamente,
    calor e luz ao seu Amado.
  4. Quão suave e amorosamente
    despertas em meu coração,
    onde em segredo só tu habitas;
    e, em tua doce respiração,
    cheia de bem e glória,
    quão ternamente inflamas meu coração de amor.

 

 

 

 

 

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