O espelho
Do Padre John Main, “Smashing the Mirror”, MOMENT OF CHRIST (Nova York: Continuum, 1998), pp. 50-51.
Não creio que seja exagero dizer que o pecado original é a autoconsciência, a hiperautoconsciência do egoísmo que dá origem à consciência dividida. É como ter um espelho entre Deus e nós mesmos. Toda vez que olhamos no espelho, vemos a nós mesmos. O propósito da meditação é quebrar esse espelho, para que não olhemos mais para o reflexo das coisas e, consequentemente, vejamos tudo ao contrário, inclusive a nós mesmos. A essência da meditação é tomar o reino dos céus de assalto. O espelho deve ser quebrado. E Jesus está falando sobre superar a autoconsciência, o eu refletido, quando diz que ninguém pode ser seu seguidor a menos que deixe o seu eu para trás.
Agora, não é preciso muito conhecimento da vida para perceber que a autoconsciência nos ilude, fazendo-nos ver o universo inteiro girar em torno de nós mesmos, ou para concluir que essa autoconsciência é um estado terrível. Talvez seja isso que leva a maioria de nós à meditação. Não queremos olhar para esse espelho e ver tudo ao contrário pelo resto de nossas vidas. Queremos olhar com coragem para o infinito mistério de Deus. Mas quando começamos a sentir aquela primeira perda da autoconsciência e a entrar no silêncio profundo que é a meditação, podemos ficar perturbados e assustados. É aí que precisamos de fé, e compreender que a fé é um dom — dado a nós, como nos diz São Paulo, em abundância — se apenas estivermos abertos a ela. Se apenas pudermos continuar martelando naquele espelho até que ele se estilhace, martelando [gentilmente] nele com o nosso mantra.
Não há nada de passivo na meditação. É um estado de abertura crescente e profunda com a fonte de poder de toda a realidade, o Deus-que-é-amor. O objetivo da nossa vida e o convite da nossa vida é nada menos do que a união completa, a ressonância plena com essa fonte de poder.
Após a meditação: um trecho de “O conhecimento do coração e o aroma de jasmim de se sentir próximo de Deus”, THE SOUL OF RUMI (Nova York: HarperCollins, 2001), p. 324.
Nenhum erro
pode ser cometido ou dito quando sua consciência está no seu amor
e seu amor está em
Deus. Nessa luz, não há distrações.
