Qual a diferença entre realidade e irrealidade?
Em Tempos de Ansiedade, por John Main OSB, Palestras de Meditação 2009 C
Qual a diferença entre realidade e irrealidade? Creio que uma forma de compreender isso é que a irrealidade é produto do desejo. Uma das coisas que aprendemos na meditação é a abandonar o desejo, e aprendemos isso porque sabemos que o nosso convite é para viver plenamente o momento presente. A realidade é simplesmente estar ancorado em Deus, o fundamento do nosso ser. O desejo exige movimento constante, esforço constante. A realidade exige quietude e silêncio. E esse é o compromisso que assumimos ao meditar.
Como cada um de vocês já descobriu por experiência própria, na quietude e no silêncio, aprendemos a nos aceitar como somos. Isso soa muito estranho aos ouvidos modernos, sobretudo aos cristãos modernos que foram criados para praticar tanta ansiedade e busca constante: Não deveria eu ser ambicioso? E se eu for uma pessoa má? Não deveria eu desejar ser melhor?
A verdadeira tragédia do nosso tempo é que estamos tão cheios de desejos, de felicidade, de sucesso, de fartura, de poder, seja lá o que for, que estamos sempre nos imaginando como poderíamos ser. Por isso, raramente nos conhecemos como realmente somos e raramente aceitamos nossa situação atual.
Mas a sabedoria tradicional nos diz: Saiba que você é, e que você é como você é. Pode muito bem ser que sejamos pecadores, e se formos, é importante que saibamos disso. Mas muito mais importante para nós é saber, por experiência própria, que Deus é o fundamento do nosso ser, que estamos enraizados nele e alicerçados nele. Cada um de nós precisa saber disso pessoalmente, por experiência própria, em nosso próprio coração. Essa é a estabilidade de que todos precisamos, não o esforço e o movimento do desejo, mas a estabilidade e a quietude do enraizamento. O que cada um de nós é convidado a aprender em nossa meditação, em nossa quietude em Deus, é que nele temos todas as coisas necessárias.
A raiz da qual brotamos é o Amor. Nele existimos e nos reconhecemos como amáveis e amados. Esta é a suprema realidade que Jesus veio pregar, comunicar, viver e estabelecer. E ela se estabelece em nossos corações, se tão somente estivermos abertos a ela. É sobre isso que trata nossa meditação, pois é somente a partir desse amor e com esse amor que podemos nos compreender corretamente e compreender toda a criação. Sem esse enraizamento no amor, tudo o que veremos serão sombras e fantasmas; e jamais conseguiremos entrar em contato com eles, pois não possuem realidade.
Os Homens Ocos, de T.S. Eliot (Domínio Público)
Somos os homens ocos,
Somos os homens de palha,
Inclinando-se juntos,
Com a cabeça cheia de palha. Ai de nós!
Nossas vozes ressecadas, quando
Sussurramos juntos,
São silenciosas e sem sentido,
Como o vento na grama seca
Ou os pés de ratos sobre cacos de vidro
Em nosso porão seco.
Forma sem contorno, sombra sem cor.
Força paralisada, gesto sem movimento;
Aqueles que cruzaram
Com o olhar direto, para o outro reino da morte,
Lembram-se de nós — se é que se lembram — não como almas
Violentas e perdidas, mas apenas
Como homens vazios.
II
Olhos que não ouso encontrar em sonhos
No reino onírico da morte
Estes não aparecem:
Lá, os olhos são
Luz do sol em uma coluna quebrada
Lá, há uma árvore balançando
E vozes estão
No canto do vento
Mais distantes e mais solenes
Que uma estrela que se apaga.
Que eu não me aproxime mais
Do reino dos sonhos da morte.
Deixe-me também usar
Disfarces tão deliberados:
Casaco de rato, pele de corvo, bastões cruzados.
Num campo,
Comportando-me como o vento se comporta,
Sem me aproximar mais.
Não aquele encontro final
No reino do crepúsculo
III
Esta é a terra dos mortos.
Esta é a terra dos cactos.
Aqui as imagens de pedra
São erguidas, aqui elas recebem
A súplica da mão de um morto,
Sob o brilho de uma estrela que se apaga.
Será assim
No outro reino da morte,
Acordando sozinhos
Na hora em que estamos
Tremendo de ternura,
Lábios que beijariam
Formam preces para a pedra quebrada.
IV
Os olhos não estão aqui.
Não há olhos aqui.
Neste vale de estrelas moribundas.
Neste vale oco.
Nesta mandíbula quebrada de nossos reinos perdidos.
Neste último dos pontos de encontro,
Tateamos juntos
E evitamos a fala,
Reunidos nesta praia do rio caudaloso.
Cegos, a menos que
Os olhos reapareçam
Como a estrela perpétua,
Rosa multifoliada
Do reino crepuscular da morte,
A única esperança
Dos homens vazios.
V
Aqui vamos nós em volta do figo-da-índia,
Figo-da-índia, figo-da-índia.
Aqui vamos nós em volta do figo-da-índia,
Às cinco horas da manhã.
Entre a ideia
E a realidade,
Entre o movimento
E o ato,
Cai a sombra.
Pois Teu é o Reino
Entre a concepção
E a criação,
Entre a emoção
E a resposta,
Cai a sombra.
A vida é muito longa.
Entre o desejo
E o espasmo,
Entre a potência
E a existência,
Entre a essência
E a descida,
Cai a Sombra.
Pois Teu é o Reino
Pois Tua é
A vida
É tua,
É assim que o mundo acaba.
É assim que o mundo acaba.
É assim que o mundo acaba.
Não com um estrondo, mas com um gemido.
