Temos que nos esvaziar
A espera também é um conceito central na filosofia mística de Simone Weil, e ela nos leva de volta à realidade fundamental. Ela leva isso até aquilo que chama de “momento da criação”, quando Deus falou e tudo veio a existir, quando tudo passou a existir.
Deus esvaziou-se de sua divindade, ela diz, e nos preencheu com uma falsa divindade. É uma ideia curiosa, então vamos permanecer com ela por um momento.
Deus esvaziou-se de sua divindade para criar o espaço no qual o mundo, o cosmos, pudesse existir. Caso contrário, haveria apenas Deus. Tem que haver esse afastamento de Deus, uma ideia muito importante no misticismo judaico. Deus precisa retirar-se ou esvaziar-se para que seja criado um espaço onde algo que ainda não é plenamente Deus possa existir.
E o que ocupa esse espaço somos nós, por exemplo, e nós somos preenchidos com uma falsa divindade, diz ela. Eu associaria essa ideia à realidade virtual, à percepção do ego sobre a realidade, à imagem que criamos mentalmente do mundo.
E precisamos nos esvaziar disso, assim como Deus se esvaziou para nos criar. Precisamos nos esvaziar do nosso falso sentido da realidade para sermos divinizados, para nos tornarmos aquilo que somos chamados a ser, para cumprir o propósito da nossa existência, que é, como diz São Pedro, “participar da própria natureza de Deus” (2Pd 1,4), do próprio ser de Deus.
(Do livro A Arte de Esperar, de Laurence Freeman)
