Quarto Domingo da Quaresma
Reflexão sobre o Evangelho
João 9: 1-41
A Cura do Cego de Nascença
E eles o expulsaram
Pouco depois de ingressar no mosteiro, percebi uma leve distorção na vista de um dos olhos, uma área borrada que não clareava mesmo que eu piscasse. O oftalmologista disse que eu precisava consultar um especialista, consulta marcada para daí a seis semanas. Quando Dom John Main soube, chamou um homem da paróquia do mosteiro que, depois soube, era o melhor cirurgião oftalmológico do país. Ele achou que não era nada, mas concordou em me examinar na pausa do almoço no dia seguinte. Ele diagnosticou um descolamento de retina iminente, nos dois olhos, e fez uma bem-sucedida operação a laser naquela mesma tarde. Desde então, o evangelho de hoje me lembra do meu medo da cegueira e o grato alívio de receber a cura para meus olhos.
Semana passada, na história da mulher no poço, precisamos examinar o significado dual do símbolo da água – aquela que realmente bebemos e que constitui 60% do nosso corpo, e o símbolo da fonte “interior”, sempre presente, transbordante, de pura consciência, que nos faz plenamente humanos. Hoje devemos combinar o significado literal da cegueira com aquela força obscura que obstinadamente se recusa a ver a luz, perversamente preferindo a cegueira da negação e insistindo que aquilo é a luz. Esta batalha entre os poderes da luz e das trevas está sendo travada em nosso mundo atual e no alto nível da geopolítica.
Paulo diz que “tudo que se torna visível é luz”. Para ver com o olho do coração precisamos aceitar o que está realmente ali, visível a um coração puro e uma mente sem perturbações. Nesta história ressoa em mim a gratidão do homem cuja vista foi restaurada na piscina de Siloé perto do Templo e, certamente aquela devida a Deus, como deveríamos todos nós. Ao invés disso, a bondade que vimos ser manifestada fica obscurecida pelo ciúme, pela amargura e a hebetude proposital das autoridades de mente regulatória. As leis são um mal necessário na vida, mas facilmente engolfam e paralisam o bem, como se vê em todas as instituições humanas, pois são um meio de controlar e alimentar a ilusão de que somos Deus.
Hebetude significa embotamento, torpor mental. Especialmente quando é proposital, fiquem atentos. Quando escolhemos ficar cegos à batalha entre os poderes da verdade e da ilusão no momento em que começa. George Fox, o fundador dos Quakers, ficou na prisão e foi espancado muitas vezes por proclamar a luz de Cristo dentro de nós, ao contrário da luz das dos pináculos (seu termo para falar das igrejas). Como Cristo, ele não temia dizer a verdade ao poder e acreditava que “aquele que mostra ao homem seus pecados os redimiu deles”.
A meditação reverte a hebetude proposital. Afia a mente e limpa o olho do coração com o raio laser da verdade. Nos conflitos globais de hoje, ela é o código secreto que desarma todas as armas destrutivas da negação e da opressão.
Imagem: Cristo Curando o Cego, El Greco (Wikipedia/Domínio Público)
