As Raízes da Meditação Cristã
Aqueles que optavam por se retirar para o deserto viam isso como abrir mão de tudo o que era considerado essencial na vida.
Por Kim Nataraja
Analisamos alguns aspectos essenciais da meditação. Todos eles se baseavam nos ensinamentos da Igreja primitiva e dos Padres e Madres do Deserto, especialmente nos ensinamentos de Evágrio, mestre de Cassiano e um dos mais influentes Padres do Deserto. Mas o que levou os primeiros cristãos a se mudarem para o deserto no século IV d.C., inicialmente para os arredores de Alexandria e posteriormente para a Palestina e a Síria?
Era o desejo de levar uma vida cristã autêntica, baseada nos ensinamentos de Jesus e, portanto, na profunda oração contemplativa. Mas seguir verdadeiramente a Cristo também era visto como segui-lo até a morte; o ‘martírio’ era uma motivação importante. ‘A Vida de Pacômio’ descreve o efeito que os mártires tiveram na fé dos cristãos e na vida que desejavam levar: “A fé cresceu muito nas igrejas de todas as terras, mosteiros e lugares para ascetas começarem a surgir, pois aqueles que foram os primeiros monges tinham visto a perseverança dos mártires.”
Com a conversão de Constantino ao cristianismo, a perseguição cessou. Aqueles que optaram por se retirar para o deserto viam a ida para lá e a renúncia a tudo o que era considerado essencial na vida – família, casamento, participação ativa na sociedade e posse de bens – como uma forma alternativa de martírio, um martírio “branco” em oposição ao “martírio vermelho” dos verdadeiros mártires.
Além disso, Constantino investia muito dinheiro na construção de igrejas e no apoio financeiro aos bispos, um fato que mudou completamente o caráter da Igreja primitiva. O número de cristãos praticantes aumentou nas décadas seguintes de 3 para 30 milhões. Ser cristão tornou-se bastante vantajoso.
São João Crisóstomo expressou seu descontentamento com essa mudança de forma bastante contundente em suas ‘Homilias em Éfeso’: “Pragas repletas de males indizíveis atingiram as igrejas. Os principais cargos se tornaram comercializáveis. Riqueza excessiva, poder desmedido e luxo estão destruindo a integridade da Igreja.”
Não apenas alguns cristãos convictos estavam perturbados com a mudança de posição do cristianismo, mas também estavam horrorizados com a crescente decadência da sociedade: “A sociedade era vista (pelos Padres do Deserto) como um naufrágio do qual cada indivíduo tinha que nadar para salvar a sua vida.” (Thomas Merton)
Isso os incentivou ainda mais a ir viver a mensagem do Evangelho na solidão do deserto egípcio, tendo como regra de vida as palavras de São Paulo: “Não se conformem com este mundo, mas transformem-se pela renovação da sua mente” (Romanos 12:2).
No entanto, a necessidade de recolhimento e intensificação da prática espiritual não foi apenas uma reação à situação em que os primeiros cristãos se encontravam; parece também ser um desenvolvimento natural que ocorre ao longo do tempo.
