O Falso Eu
O Falso Eu, de Encontrando a Si Mesmo 1 por Laurence Freeman OSB, Palestras de Meditação 2017 C
Perder-se significa deixar de lado as camadas de identidade que chamamos de falsas, porque são impermanentes. Elas só são falsas se lhes atribuirmos permanência ou se nos apegarmos a elas – eu tenho meus direitos; eu tenho minha identidade; eu tenho minha posição; tratem-me com mais respeito. Isso geralmente surge do falso eu, um senso de identidade que tentamos defender ou afirmar. Isso faz parte do nosso desenvolvimento humano e psicológico.
O ego surge muito cedo, aos dois anos de idade, e causa imenso sofrimento e alegria aos pais, até a adolescência, quando passa a causar apenas sofrimento. Ele precisa ser tolerado, e pode ser tolerado porque o vemos como parte de um processo evolutivo emergente. Onde ele não pode ser tolerado é se esse ego de dois anos ainda estiver atuando aos 70 anos, como pode acontecer, ou em qualquer fase intermediária. Aí ele deixa de ser encantador.
Portanto, é preciso ser capaz de reconhecer quando e em que circunstâncias se trata do nosso ego ou, se preferir, do nosso falso eu. Ele só é falso se o tomarmos como verdadeiro, se formos iludidos ou dominados por ele. Caso contrário, ele simplesmente existe. Ele cumpre uma função. O ego cumpre uma função – é um veículo. Em sânscrito, a palavra intimamente relacionada ao ego é ahamkara, que vem de duas palavras ou dois sentidos: um dos quais é “Eu sou” (aham) e o outro é kara, que nos dá a palavra “carruagem”, “carro” ou “veículo”. Assim, podemos dizer que o ego é o veículo, o transportador, a plataforma para apresentar o verdadeiro eu até que estejamos prontos, até que estejamos mais maduros. Precisamos nos enxergar como uma obra em processo de amadurecimento. Portanto, o ego tem uma função.
Isso nos permite diferenciar, separar-nos de nossos pais, do útero, do amor materno; e nos separa das instituições que, de outra forma, nos controlariam e nos transformariam em nacionalistas, intolerantes ou preconceituosos. Assim, o ego nos permite desapegar daquilo a que nos apegamos, e nesse processo sofremos.
Toda separação causa dor, mas ao mesmo tempo nos liberta. Quando uma criança se separa dos pais e sai de casa, é muito doloroso. Quando os pais levam o filho para a universidade e o deixam lá, sabem que o perderam para sempre, de certa forma. Ao mesmo tempo, ficam felizes por isso; e, claro, o relacionamento continua porque o filho volta para casa. Mas essa separação é necessária para um relacionamento saudável, assim como o desapego é necessário nos novos relacionamentos que construímos, porque agora temos um senso de identidade, um senso de quem somos. Ainda precisamos ter cuidado para não recair nos padrões infantis de apego – casar-se com nosso pai, casar-se com nossa mãe – e simplesmente querer recriar aquele tipo de segurança uterina. Então, tudo isso é psicologia humana, não é? É esse o eu que estamos tentando perder, é o apego a manifestações temporárias ou transitórias da nossa identidade.
À medida que aprendemos a deixar esses sentimentos de lado — e acredito que a maneira mais eficaz de fazer isso é meditando — a vida nos apresenta inúmeras oportunidades para tal. Meditar é uma escolha nossa. E, claro, uma vez que nos acostumamos a meditar, torna-se mais fácil fazer isso no dia a dia. Somos capazes, por exemplo, de reconhecer o que está nos dominando, o que nos controla com medo, raiva, ciúme, amargura, enfim, o desejo de controlar ou possuir. Então, percebemos isso e dizemos: “Ah, vejo isso acontecendo na minha mente; preciso controlar, preciso reconhecer e preciso morder a língua, ou não preciso enviar aquele e-mail imediatamente, ou preciso esperar antes de ter aquela conversa”. Isso é autocontrole, que é um dos frutos do Espírito Santo, fruto da meditação. Se não conseguirmos controlar o ego, o ego nos controlará.
Dos ensinamentos de Sri Ramana Maharshi em suas próprias palavras:
A consciência é o Eu do qual todos estão cientes. Ninguém jamais está afastado do Eu e, portanto, todos são, de fato, autorrealizados; apenas – e este é o grande mistério – as pessoas não sabem disso e desejam realizar o Eu. Realização consiste apenas em livrar-se da falsa ideia de que não se é realizado. Não é algo novo a ser adquirido. Deve já existir, ou não seria eterno, e somente o que é eterno vale a pena buscar.
Uma vez removida a falsa noção de “Eu sou o corpo” ou “Eu não sou realizado”, resta apenas a Consciência Suprema ou o Eu, e no atual estado de conhecimento das pessoas, isso é chamado de “Realização”. Mas a verdade é que a Realização é eterna e já existe, aqui e agora.
