O Dom da Liberdade
O grande presente que nos é dado, quando mergulhamos nessa correnteza, é o dom da liberdade
De “Transformados em Cristo”, de John Main, Série de Palestras Meditatio 2017 A
Uma das grandes necessidades do nosso tempo é a de homens e mulheres que confiem no dom da própria vida. Homens e mulheres que possam viver suas vidas a partir do poder que foi libertado em nosso mundo pela vida, morte e ressurreição de Jesus. A meditação é o nosso compromisso diário com a realidade desse poder, o poder de Jesus que foi libertado e flui em nosso mundo, em nossos corações. O grande dom que nos é dado, uma vez que mergulhamos nessa corrente, é o dom da liberdade. Somos libertados pelo poder dessa vida, morte e ressurreição.
Muitas vezes pensamos em liberdade como a capacidade de fazer o que queremos. Mas somente a experiência mais rudimentar da meditação, o contato com o poder de Jesus em nossos corações, somente esse contato mais rudimentar nos mostrará que a liberdade, em essência, não é a liberdade de fazer o que queremos, mas a liberdade de sermos quem somos: redimidos, amados por Cristo. Para sermos quem somos, precisamos estar em relacionamento. Todos sabemos que não podemos ser nós mesmos isoladamente. E o relacionamento fundamental de nossa vida é o nosso relacionamento com Deus; e nossa meditação é o nosso compromisso com esse relacionamento. A oração, poderíamos descrever como “atenção altruísta a Deus”. É por isso que, na meditação, não pensamos em nós mesmos; nos dedicamos a Deus. Jesus nos diz: “Só Deus é bom”, ou seja, Ele é a própria bondade. E a maravilha e o espanto da oração residem no fato de que, nesse estado de atenção altruísta, entramos em sua bondade plena e, assim, nos tornamos bons nós mesmos, não por qualquer tipo de esforço platônico, mas simplesmente porque entramos na órbita de sua bondade. Creio que essa é a base essencial de toda a moralidade: participar da bondade de Deus.
Os antigos Padres chamavam isso de “pureza de coração”. Nosso coração é purificado de todo desejo, até mesmo do desejo por Deus. Não queremos possuir Deus, possuir sabedoria ou possuir felicidade. Simplesmente, em quietude serena, somos quem somos e nos contentamos em ser assim – em ser bons porque estamos naquele que é toda bondade.
Na meditação, não buscamos manipular Deus para nossos próprios fins. Não estamos, por assim dizer, tentando envolvê-lo em nossas vidas. Estamos descobrindo a maravilha de nossa participação na vida Dele. Ao recitarmos nosso mantra, ao silenciarmos, ao alcançarmos a quietude, ao transcendermos o desejo, ao atingirmos a pureza de coração, simplesmente nos abrimos à realidade em sua revelação mais pura e íntima. Abrimo-nos à presença de Deus, dentro de nós, ao nosso redor, a presença que nos sustenta com seu amor.
A importância da meditação reside em podermos ter essa certeza. Estamos na presença daquele que nos purifica com seu amor e seu perdão. E estamos na presença daquele que nos renova com energia ilimitada, proveniente dessa mesma fonte infinita de amor.
Nunca se esqueça da pureza de coração envolvida na recitação do mantra. É a fidelidade ao mantra do início ao fim de cada meditação que nos conduz a essa simplicidade, a essa inocência, a essa pureza, porque deixamos o ego para trás. Para nos dar a confiança necessária para proclamar Cristo, para testemunhá-lo pessoalmente a partir do nosso próprio conhecimento, precisamos ser fiéis – fiéis à nossa prática diária e, dentro da prática, fiéis ao mantra.
O Retiro, de Henry Vaughan
Felizes aqueles primeiros dias! Quando eu
Brilhava em minha infância angelical.
Antes de compreender este lugar
Designado para minha segunda jornada,
Ou ensinar minha alma a imaginar algo
Além de um pensamento branco e celestial;
Quando eu ainda não havia caminhado mais de
Um quilômetro ou dois do meu primeiro amor,
E, olhando para trás, naquele curto espaço,
Podia vislumbrar Seu rosto brilhante;
Quando em alguma nuvem ou flor dourada
Minha alma contemplativa se demorava por uma hora,
E naquelas glórias mais fracas espiava
Algumas sombras da eternidade;
Antes de ensinar minha língua a ferir
Minha consciência com um som pecaminoso,
Ou ter a arte negra de dispensar
Um pecado a cada sentido,
Mas sentia através de toda esta vestimenta carnal
Brotos brilhantes da eternidade.
Oh, como anseio viajar de volta
E trilhar novamente aquele caminho antigo!
Para que eu possa mais uma vez alcançar
Aquela planície onde pela primeira vez
Deixei meu glorioso grupo,
De onde o espírito iluminado vê
Aquela cidade sombreada de palmeiras.
Mas, ah! Minha alma, com tanta demora,
Está embriagada e cambaleia pelo caminho.
Alguns homens amam o movimento para a frente;
Mas eu prefiro caminhar para trás,
E quando este pó cair na urna,
Ao estado em que vim, retornarei.
