Festa de São Bento

Bonnevaux

Caríssimas irmãs e caríssimos irmãos em nosso santo pai Bento,

Hoje celebramos a Festa durante a nossa Escola de Verão de Bonnevaux. Também convidamos os nossos vizinhos e, junto com eles, nesta tarde ouviremos os residentes da nossa comunidade contarem o que aprenderam, vivendo aqui, sobre a sabedoria contemporânea de Bento. Hoje, enquanto eu subia para a oração do meio-dia no Celeiro com uma oblata que vem regularmente como voluntária, ela me disse em poucas palavras o que encontra aqui e o que a faz voltar: “Acima de tudo, é o ritmo da vida. Tudo é sustentado por esse ritmo e recebe profundidade e sentido.”

Nossa experiência geral da vida hoje não é ritmada, mas muito fragmentada, imprevisível e perturbadora. Aprender a viver no ritmo da obediência, da estabilidade e da conversão contínua do coração não resolverá imediatamente todos os problemas do mundo. Tampouco o nosso ritmo diário de lectio e meditação torna a vida livre de dificuldades. Mas ele abre, e mantém aberta, a fonte interior da paz e da esperança na alegria do Espírito; isso significa que podemos enfrentar as dificuldades — e mais do que enfrentá-las —, transformando o sofrimento e até o conflito em realidades enriquecedoras e iluminadoras. A sabedoria de Bento está enraizada no ordinário, mas produz frutos extraordinários:

Abramos os olhos à luz que diviniza e os ouvidos à voz que vem do céu… Há aqui alguém que anseia pela vida e deseja ver dias felizes? Se você ouve isso e responde: “Eu”, busque a paz e siga-a… e, antes mesmo que você me invoque, eu lhe direi: “Aqui estou.” O que, queridos irmãos e irmãs, é mais agradável do que esta voz do Senhor que nos chama? Vejam como o Senhor, em seu amor, nos mostra o caminho da vida.” (Prólogo)

 

Este chamado à verdadeira vida humana não é justamente a palavra de sabedoria que nós, como monges beneditinos ou oblatos, deveríamos difundir em tempos tantas vezes atormentados pela desesperança e pela falta de confiança em nossa “magnífica humanidade”?

Quando eu pensava em me tornar monge, John Main perguntou se eu estava preparado para o que iria encontrar. Achei que ele se referia ao que eu teria de abandonar e ao que deixaria para trás. Ele sorriu e disse: “Não, não é isso que quero dizer. Você está preparado para a alegria?” Minha vida como monge nem sempre foi fácil — a de quem é? —, mas a pergunta dele me despertou para o seu verdadeiro significado, para a verdadeira busca.

Há alguns dias, fui rezar e almoçar com os monges de Ligugé, o mosteiro mais antigo da Europa, situado a pouca distância de Bonnevaux. Depois do almoço, sentei-me com a comunidade no jardim para tomar café; conversamos sobre a nossa vida, compartilhamos notícias e rimos juntos. Na volta, meu carro teve um pneu furado em uma estrada isolada, ensinando-me a aceitar o que quer que aconteça. Enquanto esperava ajuda, também tive tempo de recordar as palavras de santo Aelredo de Rievaulx em “A amizade espiritual”.

Anteontem, enquanto eu caminhava pelo mosteiro e os irmãos estavam sentados em um círculo cheio de amor, maravilhei-me com as folhas, flores e frutos de cada árvore, como se estivesse nos caramanchões perfumados do paraíso. Não encontrando uma só alma que eu não amasse e, eu tinha certeza, uma só alma pela qual eu não fosse amado, fui tomado por uma alegria que superava todos os prazeres do mundo.

 

É claro que talvez não seja assim todos os dias, nem no mesmo grau, mas essa é a sabedoria de Bento sobre aquilo para o qual devemos estar preparados e sobre a verdadeira grandeza da vida humana.

Estamos restaurando a pequena capela de Bonnevaux. Quando retiramos o reboco do século XIX, apareceram as belas pedras antigas do século XII. Também descobrimos que as fundações mais profundas datavam do século VI. Na foto, pode-se ver o batente da porta que, a partir do claustro, levava à antiga igreja, hoje desaparecida. Fazemos parte de uma grande tradição, um rio de sabedoria que nunca secou e sempre encontra novas saídas. Nosso compromisso com a obediência, a estabilidade e a conversão, com a lectio e com a oração pura do coração, faz de nossa comunidade de amor um verdadeiro mosteiro beneditino sem muros, mas com portas interiores que conduzem ao aposento cheio de luz divinizante.

Feliz Festa, e que a sua celebração nos ajude a compartilhar generosamente com todos a sabedoria de Bento.

Com todo o meu amor

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