Purificando as emoções

Por Kim Nataraja

Vimos a importância das virtudes do arrependimento e da humildade para o nosso crescimento espiritual. Mas existem fortes emoções egocêntricas que podem bloquear qualquer progresso. Em uma de suas obras mais populares, “Praktikos”, Evágrio, o Pai do Deserto por excelência do século IV e mestre de Cassiano, trata principalmente dessa grande dificuldade: “A vida ascética é o método espiritual para purificar a parte afetiva da alma”. Evágrio abordava os problemas dos ascetas sob seus cuidados no deserto egípcio. Contudo, seu conselho é tão sólido psicologicamente que também se aplica muito bem a pessoas comuns como nós, que trilham seriamente o caminho espiritual.

Evágrio usa o termo “demônios” para os desejos egocêntricos avassaladores que podem alimentar nosso comportamento e nos manter focados exclusivamente no mundo material. Homens e mulheres modernos podem se sentir um pouco incomodados com o uso desse termo, mas ele se refere a fortes emoções egocêntricas, que são o resultado de profundas necessidades instintivas de sobrevivência por segurança, poder, controle e autoestima que não foram satisfeitas. O “ego” é o nosso instinto de sobrevivência; precisamos dele e ele é valioso – é uma dádiva de Deus. Precisamos desse instinto para lidar com os perigos do ambiente em que nos encontramos; nossas necessidades de sobrevivência precisam ser satisfeitas em um nível saudável. Mas se elas forem percebidas como não satisfeitas, especialmente desde a infância, precisamos nos conscientizar de como esses desejos naturais podem ser distorcidos e crescer desproporcionalmente, transformando-se em forças que, inconscientemente, impulsionam nosso comportamento de forma demoníaca . Então, Evágrio adverte, eles precisam ser purificados e retornar ao seu estado natural de equilíbrio.

Segundo ele, nossa tarefa é identificar nossos demônios pessoais . Para isso, ele recomenda, antes de tudo, a oração/meditação, que nos permite abrir-nos à ajuda de Cristo, e, em segundo lugar, ele encoraja o esforço para alcançar o autoconhecimento, que se conquista observando nossos pensamentos. Evágrio não nos pede para observar as trivialidades que flutuam na superfície da nossa mente. Isso seria inútil e extremamente tedioso. Ele se preocupa com os pensamentos profundos que são expressões das nossas necessidades não satisfeitas e desejos impuros. Precisamos dar a esses pensamentos significativos e às suas associações a atenção que merecem. Eles são os únicos indicadores que temos do que realmente nos motiva, para o bem ou para o mal. Contudo, esse trabalho que fazemos não é apenas para nosso próprio benefício; ao purificarmos nossas emoções, ao sermos curados de nossas feridas, o fluxo do amor puro que permeia nosso verdadeiro eu se torna livre, resultando em abertura e compaixão para com os outros.

Sim, às vezes a vida é realmente só uma questão de sobrevivência. Mesmo nas circunstâncias mais terríveis, encontramos pessoas que ignoram o perigo que correm e agem com integridade, amor e compaixão. Etty Hillesum, uma mística holandesa que morreu em um campo de concentração nazista durante a Segunda Guerra Mundial, demonstrou apoio e conforto amoroso a todos que estavam com ela, pois via a essência Divina dentro de cada um: “Mas uma coisa está ficando cada vez mais clara para mim: que o Senhor não pode nos ajudar, que nós devemos ajudá-Lo. E isso é tudo o que podemos fazer hoje em dia e também tudo o que realmente importa: que protejamos essa parte de Você, Deus, em nós mesmos… … O Senhor não pode nos ajudar, mas nós devemos ajudá-Lo e defender Sua morada dentro de nós até o fim.” (Uma Vida Interrompida)

O objetivo da nossa prática de meditação não é nos livrarmos do ‘ego’, mas sim abrirmos o ‘ego’ ao poder curativo do Espírito, o que nos ajuda a entrar em contato com ‘essa parte de Ti, Deus’.

 

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