Segundo Domingo do Advento
No século XIV, Meister Eckhart gostava de despertar as pessoas em seus sermões ao expor perspectivas desconfortavelmente novas sobre sua fé padronizada. Deve ter despertado alguns paroquianos adormecidos quando perguntou: “De que me serve se este nascimento eterno do Filho divino acontecer incessantemente, mas não acontecer dentro de mim? E, que isso aconteça dentro de mim, é realmente o que importa.”
Na verdade, o grande Agostinho havia feito a mesma pergunta mil anos antes e acrescentado que, se somos filhos de Deus, devemos nos tornar mães de Deus também. Se, disse ele, esse nascimento da palavra eterna como Cristo na alma vai acontecer, nosso coração – o centro mais profundo do nosso ser – deve se tornar o presépio sagrado. Se formos cheios de distrações egocêntricas, não há ‘espaço na estalagem’, e assim o coração deve se tornar aquele espaço vazio e aberto onde o nascimento ocorre e pelo qual Ele é recebido em nosso mundo.
No evangelho de hoje, João Batista geralmente é mal traduzido como dizendo ‘arrependei-vos, pois o reino de Deus está próximo’. Basileia, a palavra grega que pensamos como ‘reino’ (do inglês king-dom), é feminina e, portanto, poderia igualmente traduzi-la como ‘reino da rainha’ (queen-dom). Não significa uma área jurídica, mas o espaço no qual a presença e a graça de Deus são reconhecidas e bem-vindas. A palavra do evangelho, mal traduzida como ‘arrepende-se’, é ‘metanoia’: uma mudança de mentalidade e de coração. Não se trata de sentir pena dos erros do passado. Significa girar 180 graus e mudar completamente sua perspectiva e sua abordagem à realidade.
Vivendo no deserto, vestindo uma peça de pelo de camelo e comendo gafanhotos e mel selvagem, João nos parece um pouco extremista. Pessoas que reduzem o desperdício e voltam ao essencial são frequentemente chamadas de loucas. Mas, por causa de sua sanidade espiritual, ele atraía as multidões que perguntavam ‘o que faremos?’ porque, como nós, viviam em tempos confusos, divididos e perigosos. Ele lhes disse simplesmente para viver honestamente e com justiça, mas que esse estilo de vida os prepararia para a iminente – e imanente – chegada do grande transformador, de todas as coisas.
A meditação é o grande simplificador. Isso reduz a forma como desperdiçamos tanto tempo quanto oportunidades da vida. No dia a dia, é o catalisador para a metanoia contínua. O remédio que afrouxa o domínio da ilusão. Normalmente, começamos com entusiasmo, mas antes de chegar aos 180 graus completos desaceleramos e dizemos: ‘assim já está bom, vamos parar por aqui’. Felizmente, se o processo de nascimento já começou, ele não nos permite detê-lo nem o negar. Precisamos levá-lo adiante até que irrompa em nosso mundo — e somos felizes e afortunados quando isso acontece.
